A vitamina D permite que o intestino absorva o cálcio necessário para mineralizar o osso, o que a torna essencial no esqueleto em crescimento. A deficiência importante e prolongada pode comprometer essa mineralização e levar ao raquitismo. Ainda assim, não se recomenda dosar vitamina D em toda criança saudável: a investigação é dirigida a quem tem fator de risco, como baixa exposição solar, obesidade, má absorção intestinal ou doença crônica. A correção repõe a vitamina e trata a causa da falta, sempre com conduta individual definida em consulta.

O que a vitamina D faz no osso em crescimento

Apesar do nome, a vitamina D funciona como um hormônio. Ela é produzida na pele a partir da luz solar, passa por transformações no fígado e no rim e só então assume sua forma ativa. Nessa forma, sua principal tarefa é garantir que o intestino absorva cálcio e fósforo em quantidade suficiente para que o osso possa se mineralizar.

Na criança, essa função pesa mais do que no adulto por uma razão simples: o esqueleto infantil não está apenas se mantendo, está sendo construído. As placas de crescimento nas extremidades dos ossos longos produzem continuamente tecido novo, que precisa endurecer para sustentar peso e movimento. Sem mineral disponível, esse tecido recém-formado permanece mole.

Quando a falta é intensa e se mantém por muito tempo, o resultado clínico é o raquitismo: deformidade dos ossos longos, alargamento de punhos e tornozelos, dor, dificuldade para andar e comprometimento da velocidade de crescimento. É um quadro que hoje se vê com menos frequência, mas que continua existindo, sobretudo em contextos de baixa exposição solar ou de doença de base.

Vale registrar que a maioria absoluta das crianças com vitamina D discretamente abaixo do ponto de corte laboratorial não tem nada disso. A distância entre um número levemente baixo no papel e uma repercussão óssea real é grande, e ignorar essa distância é a origem de boa parte da ansiedade em torno do tema.

Quem tem risco aumentado e quem não precisa dosar

A decisão de pedir o exame se apoia na presença de fatores que efetivamente reduzem a produção, a absorção ou o aproveitamento da vitamina D. A tabela separa os dois cenários e mostra o que se observa em cada um.

AspectoCriança sem fator de riscoCriança com fator de risco
PerfilSaudável, com rotina ao ar livre e alimentação variadaPouca exposição solar, obesidade, má absorção, doença renal ou hepática crônica
Rastreamento laboratorialNão indicado de rotinaIndicado, com periodicidade definida caso a caso
O que se observaCrescimento, ganho de peso e desenvolvimento motor na consulta de rotinaAlém disso, sinais ósseos, dor, marcha e evolução da doença de base
Risco de interpretação equivocadaAlto: valores limítrofes geram suplementação desnecessáriaMenor: o resultado é lido dentro de um contexto clínico definido
Conduta habitualOrientação de hábitos e acompanhamento pediátrico regularInvestigação dirigida e correção com controle posterior
ReavaliaçãoSomente se surgirem sinais ou fatores novosProgramada, conforme a resposta e a causa identificada

Avaliação de vitamina D e saúde óssea na infância

Criança com fator de risco, doença crônica ou sinais ósseos merece avaliação dirigida, que interpreta o exame dentro do quadro clínico em vez de tratar um número isolado.

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Por que não se dosa vitamina D em toda criança

A resposta curta é que o exame, aplicado a uma população saudável, produz mais confusão do que informação útil. Os pontos de corte usados nos laboratórios foram estabelecidos em contextos específicos e não capturam bem a variação normal entre crianças, entre estações do ano e entre tons de pele. Um mesmo paciente pode cruzar a linha do "insuficiente" em julho e voltar a valores altos em janeiro sem que nada de clínico tenha mudado.

Há também um efeito prático indesejado. Um resultado levemente baixo em criança assintomática costuma disparar suplementação por tempo indefinido, repetições sucessivas do exame e uma preocupação familiar desproporcional ao problema. Nada disso melhora a saúde óssea de quem já estava bem.

O caminho mais consistente é o inverso: avaliar risco antes de avaliar sangue. Uma criança que passa tempo ao ar livre, se alimenta de forma variada, cresce dentro da curva de crescimento esperada e não tem doença de base não precisa desse exame para ser considerada saudável.

Princípios da correção e o que acompanhar depois

Confirmada uma deficiência relevante, o tratamento se apoia em dois movimentos simultâneos. O primeiro é repor a vitamina D até que os níveis voltem a uma faixa adequada. O segundo, e frequentemente esquecido, é identificar e tratar o motivo da falta, porque repor sem corrigir a causa leva o quadro a se repetir assim que a reposição termina.

Esse motivo pode ser comportamental, como rotina quase inteiramente em ambientes fechados, ou clínico, como uma condição que prejudica a absorção intestinal de gorduras. Em crianças com obesidade infantil, há um mecanismo adicional: a vitamina D se distribui no tecido adiposo, o que reduz sua disponibilidade na circulação.

A forma de reposição, o intervalo entre as tomadas e a duração do tratamento variam conforme idade, gravidade e causa. Nada disso pode ser padronizado em um texto: a conduta é individual e definida em consulta, com controle laboratorial posterior para confirmar a resposta. Junto com o exame, o acompanhamento revisa cálcio, marcadores ósseos quando indicado e a evolução da estatura, um dado que se conecta diretamente à avaliação de baixa estatura infantil.

Um ponto final merece destaque: suplementação iniciada por conta própria, com doses altas encontradas em recomendações genéricas da internet, não é inofensiva. Por ser lipossolúvel, a vitamina D se acumula, e o excesso tem consequências reais sobre o cálcio e sobre os rins. A avaliação complementar, quando necessária, segue a mesma lógica dos demais exames hormonais na infância.

Perguntas frequentes sobre vitamina D na infância

Toda criança precisa dosar vitamina D?

Não. A dosagem de rotina em crianças saudáveis, sem fatores de risco e sem sinais clínicos, não traz benefício comprovado e gera muita interpretação equivocada de valores limítrofes. O exame é indicado quando existe fator de risco identificado ou quando há achado clínico que o justifique.

Quais crianças têm mais chance de deficiência de vitamina D?

Crianças com pouca exposição solar, pele mais pigmentada, uso constante e amplo de protetor solar sem qualquer exposição, obesidade, doenças que reduzem a absorção intestinal de gordura, doença renal ou hepática crônica, uso prolongado de certos medicamentos e lactentes em aleitamento exclusivo sem a suplementação orientada na puericultura.

O que a deficiência importante de vitamina D pode causar?

Quando a deficiência é significativa e prolongada, o osso em crescimento não mineraliza adequadamente. Isso pode levar ao raquitismo, com deformidades ósseas, dor, atraso na marcha e alteração do crescimento. Casos leves costumam ser assintomáticos, o que reforça a importância de avaliar risco em vez de dosar indiscriminadamente.

Sol resolve? Quanto tempo de exposição é necessário?

A pele produz vitamina D a partir da exposição solar, e essa é a principal fonte natural. A quantidade necessária varia muito conforme tom de pele, latitude, estação, horário e área de pele exposta, e precisa ser equilibrada com a proteção contra danos cutâneos. Por isso a orientação de exposição é individualizada e discutida em consulta, junto com a pediatria.

Como se corrige a deficiência?

O princípio é repor o que está faltando e, ao mesmo tempo, tratar a causa da falta. Não adianta repor sem corrigir uma má absorção, por exemplo. A escolha da forma de reposição, do intervalo e do tempo de tratamento depende do grau da deficiência, da idade e da condição de base, e é definida individualmente em consulta.

Vitamina D em excesso faz mal?

Sim. A vitamina D é lipossolúvel e se acumula no organismo, de modo que doses altas mantidas por conta própria podem causar elevação do cálcio no sangue, com repercussão renal e outros efeitos. Suplementação sem indicação e sem controle não é inofensiva, e por isso não deve ser iniciada por decisão da família.

Dr. João Lucas Persilva, Endocrinologista Pediátrico em BH

CRM-MG 66881 | RQE 50068. Graduação pela Faculdade de Medicina da UFMG e residências em Pediatria e em Endocrinologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da UFMG. Atendimento na Rua Fernandes Tourinho, 735, sala 804, Lourdes, Belo Horizonte - MG. Contato pelo WhatsApp (31) 98246-7560 ou pelo fixo (31) 3281-9839.

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